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segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Diálogo com o acaso ou Colocando o acaso em seu devido lugar




O acaso quis juntar o meu caminho ao dele,
mais uma vez, a qualquer custo.
Foi um caso sério!
Caso não saiba, senhor acaso,
com ele eu não caso.
E não faça pouco caso do meu sentimento.
Cada caso é um caso
e no meu caso, o que o senhor aprontou
foi um descaso,
interferir assim no destino dos outros...
Só um alerta:
Caso o senhor continue agindo assim,
poderá achar um caso que não casa com o meu,
se é que o senhor me entende
e eu não sei o que será de mim.
E por acaso o senhor sabe?
Não, senhor acaso, o senhor não sabe.
O senhor não tem bola de cristal
e nem é onisciente,
e muito menos onipotente,
apesar de se achar.
E nem venha batendo no peito
e gritando com a voz grossa:
“Mas eu sou onipresente”,
no seu caso, o nome disso é diferente,
i-n-t-r-o-m-e-t-i-m-e-n-t-o.
Isso mesmo, o senhor é um enxerido, senhor acaso
e este caso não é seu,
então, não brinque assim com a minha vida.
No meu caso, eu acho que o que o senhor gosta mesmo
é de jogar álcool no fogo
e ver se vai dar brasa ou se o vento
vai levar a fumaça para outros ares,
e caso isso aconteça,
o senhor ainda quer se justificar,
dizendo que o caso tinha que ser assim mesmo,
que eu tinha que passar por aquilo.
Me diz aí de uma vez por todas!
Qual é o seu caso comigo, senhor acaso?
Será que sou uma cobaia em suas mãos?
Ou sou um caso perdido pro senhor?
Deixe-me ver o ocaso tranquila, senhor acaso!
E decidir quem eu quero que contemple comigo
este momento e todos os outros.
Será que é pedir demais?
Por que o senhor adora meter o nariz
onde não é chamado?
Um dia ele pode acabar quebrado, cuidado!
Caso isso aconteça,
o senhor sentirá o peso das mãos
de um coração desafortunado.
Pare de me tirar de um caminho e levar para outro,
depois sair por aí dizendo
que era assim que tinha que ser,
que estava escrito.
Não sei se o senhor sabe,
mas eu também tenho caneta e adoro escrever.
Deixa-me rabiscar a minha vida, senhor acaso!
Traçar o caso sem fazer caso de nada
ou fazendo, sei lá...
Arrume um caso pro senhor,
se for o caso!
Ou então, faz assim, deixa fluir!
E caso o seu dedinho não resista
e queira interferir,
escolha o melhor pra mim!
Caso o senhor queira mesmo me ajudar,
terá que ser assim!
E fim.


[Mas pode conspirar a favor que eu deixo. Eu sei, eu sei... Mas caso a minha caneta falhe...]





Selo que ganhei da So Sad. Aqui. Obrigada pelo carinho!


“Tudo por acaso. Tudo por atraso. Mera distração..."

[Tudo por acaso – Lenine]


domingo, 5 de dezembro de 2010

Bem guardado



Retratos, cartas, sonhos,
bilhetes num papel de pão.
Estão lá, no fundo do baú,
revelando os meus segredos.

Olhos brilhantes, estrelas faiscantes
numa noite sem luar.
Estão lá, clareando o baú.

Poemas de infância com laços de cetim,
tímidos e tão puros, tão inocentes.
Brincam no fundo do baú,
fazem travessuras por lá.

Momentos que revelam poesias escondidas,
que passariam despercebidas,
mas que não passaram,
e que bom que eu pude ver!
Declamam no fundo do baú,
deixando tudo mais bonito e sensível por lá.

Amores, declarações, beijos ao pôr-do-sol,
canções ao pé do ouvido, sussurros.
Também estão lá,
suspirando num cantinho.

Ensinamentos de um velho sábio,
passados para uma sábia mulher,
passados para mim,
aprendizados de toda uma vida.
Estão lá, no fundo do baú,
como uma enciclopédia mágica.

Amizades, afetos, cuidados,
valores, amparos, abraços inteiros.
Estão todos lá, no fundo do baú,
com as mãos estendidas
e com os seus incríveis poderes.

Lágrimas derramadas,
de tristeza, de alegria,
de glória, de emoção,
todas as gotas.
Estão lá também,
bem ao lado dos sorrisos largos,
dos arrepios provocados
pela intensidade dos instantes.
Estão todos lá, no fundo do baú,
bem guardados,
bens tão bem guardados!

Não num baú jogado num canto e empoeirado,
sendo comido por traças,
mas num baú chamado lembrança
e as lembranças também nos movem.

[E passará. E ficará.]




Este alinhavo foi criado, ou melhor, o meu baú foi aberto, especialmente, para o Intermediário. Um projeto repleto de criatividade, que oferece vários pontos de vista, diversos olhares, múltiplas leituras, ou como a Carmen costuma dizer, muitas conVersas, sobre determinado tema. Um espaço com ampla dimensão e sem anteolhos, criado pelos meus queridos Marcio e Saulo.



“Vivo e mágico, com as coisas boas que tem lá...”

[Baú – Vanessa da Mata]


sábado, 20 de novembro de 2010

Luminosamente, preta!



Eu sou preta,
tenho em mim a cor da noite
e sou clara como um dia
pelo sol iluminado!

Eu sou preta,
tenho a cor da escuridão
e espalho tanta luz,
sou no breu como um clarão!

Eu sou preta,
tenho raízes africanas,
de força, raça, fé e gana,
vem daí todo o meu brilho.

Eu sou preta,
luminosamente, preta!
E rebrilho!


[A cor negra não é ausência de luz. A cor negra tem luz. E reluz!]


20 de novembro - dia da consciência negra. A consciência deve existir sempre. O preconceito, seja ele de qualquer espécie, só mostra o quão pobre é o ser que lhe carrega.








[Lavagem cerebral – Gabriel, o pensador]


sexta-feira, 15 de outubro de 2010

A menina despercebida e o menino de cabelo nagô



Ela repetia, exaustivamente, para si mesma,
que aquele menino era demais para ela,
que não podia ter o amor daquele menino.
Aquele menino que era o seu amor desde sempre,
desde que o vira pela primeira vez
e os seus olhos saltaram da face
e ficaram como cartas embaralhadas
de um baralho mágico qualquer.

Foi mesmo mágica. O coração dela batia tão forte, que o ensaio daquela banda nas ladeiras do Pelô não conseguiu ocultar tanto barulho, e a sua respiração era tão ofegante que levantava mais poeira que todas as pessoas que sambavam no Terreiro de Jesus. Jesus: levantou o rosto para o céu de olhos fechados e, numa oração tímida e tão forte, pedia aquele menino de cabelo nagô para ela. Aquele menino que era mais lindo que o Deus de Ébano do Ilê Aiyê, isso se existisse um Deus de Ébano no Ilê — ela ousara criar este posto para ele dentro de si. O que ela queria mesmo era que ele fosse o Deus de Ébano da sua vida —. Mas aquele menino era cortejado demais! Era cobiçado por todas as meninas que subiam e desciam, repetidas vezes, aquelas ladeiras históricas do Pelourinho, e por todas as turistas e por todas... E ele era encantador demais! Tão encantador que ela não ousara sonhar-se ao lado dele, mas este era o seu sonho de todos os dias, de todas as horas. Imaginava-se no ensaio do Olodum de braços dados com aquele menino, e quando as meninas caçadoras se aproximassem dele, ele olharia no fundo dos olhos dela e diria: “Já encontrei a preta da minha vida”. Era tudo o que ela mais queria na vida e era tudo o que ela mais fingia não querer para não sofrer e sofria tanto — Ela podia até achar que enganava a todos, mas como enganar a si mesma, se aquele amor queimava no seu peito mais que o sol do verão de Salvador? E ela nem percebia o quanto se diminuía, ela só queria saber de fingir que não sentia aquele amor, ela achava que era um amor impossível — achava não, tinha quase certeza, digo quase porque sempre existe uma pontinha de esperança escondida dentro de nós, mesmo que a gente negue —. Mas aquele menino tinha um sorriso bonito demais! Quando ele sorria tudo ao seu redor iluminava-se. Queria tê-lo por perto quando faltasse luz, nem precisaria de candeeiro, nem de velas nem nada, o seu sorriso clareava mais que o farol da Barra — pensava. Mas aquele menino tinha um gingado bonito demais! Quando ele dançava todas paravam pra ver e ele ficava no centro de todas as rodas de samba, sem saber que não saía do centro do coração daquela menina faceira, despercebida de todos e muito menos do menino de cabelo nagô.

As terças da benção recomeçaram, ela se arrumou e se pintou e quando ia, mais uma vez, repetir em frente ao espelho que aquele menino era demais para ela, ela fixou os olhos no espelho, olhou no fundo dos olhos dele e olhou e olhou e viu muito mais do que a sua face com um semblante entristecido, a menina viu-se por dentro e ela estava num cantinho sentada, toda encolhida e cabisbaixa, abraçada nas pernas e apertando os joelhos contra o peito. Então, tomou um impulso e deu as mãos àquela menina despercebida e ela levantou-se esplendorosa. Neste momento, a mágica aconteceu pela segunda vez, a mesma mágica que aconteceu quando vira aquele menino de cabelo nagô pela primeira vez, só que desta vez, apaixonara-se por si e aceitara o seu amor irrevogável. E uma luz fortíssima irradiou dela, tão forte que o espelho brilhava como se tivesse estrelas faiscantes por dentro. E ela disse ao espelho: — Aquele menino... Aquele menino é o seu amor, é o preto da sua vida e ele não é demais pra você, porque nada é demais diante disso, menina! E ela subiu aquelas ladeiras renovada e mais leve que um fio de lã na ventania e brilhava e brilhava tanto! Foi como se ela tivesse acordado de um sono muito profundo e que a melhor parte do sonho ainda fosse acontecer. E a menina faceira, até então despercebida, atraía olhares dos quatro cantos do Pelô — só podia ser aquele sorriso que ela não tirava do rosto por nada, estava feliz por ter saído de um casulo que criara para si mesma. E, quando ela andava toda altiva e cintilante, avistou o menino de cabelo nagô, o menino que era dono de todos os seus sonhos e devaneios, e ele vinha andando em sua direção — ela teve que travar a garganta nesta hora, temia que o seu coração saísse pela boca. E, como se o destino quisesse pregar uma peça nela, quando estava bem perto do menino, o salto do seu sapato quebrou — foi o susto do amor, mas andar de salto nas ladeiras do Pelô requer habilidades de equilibrista, eu bem sei disso, porque sempre ando e tropeço por lá. E ela abaixou toda roxa de vergonha e, antes que se levantasse, o menino abaixou também e passou a mão levemente na sua face, que estava mais quente que o dendê do tabuleiro da baiana; a baiana que assistia a tudo aquilo segurando os olhos para não piscar e quase queima os acarajés da vez — às vezes é num piscar de olhos que perdemos os momentos mais bonitos.

E, de repente, todos os olhares do Pelô voltaram-se para aqueles dois e o menino de cabelo nagô sentiu uma coisa por dentro que parecia azia, mas que era o amor despertando dentro dele como fogo, era a mágica acontecendo nele e era a primeira vez que ele sentia aquilo e era tão bom! Os dois ficaram horas perdidos naquele olhar de encontro. Algumas pessoas disseram que ouviram harpas tocarem durante todo o tempo, outras poderiam jurar que eram sons de tambores como ecos. E ele disse: “— Você gostaria de curtir o Olodum de braços dados comigo?”. Preciso mesmo dizer a resposta?! Ah! E o sapato? Pra quê? Ela flutuava... Os dois flutuavam juntos!


[E curtiram o Olodum de braços dados e a vida toda. E foi eterno e mágico todos os dias... Ela era a preta da vida dele. Era tanto amor que não passava despercebido.]



E beijaram-se a primeira vez sob este som:

[Olodum – Vem meu amor – Silvio/ Guio]


Selo que ganhei da Lívia. Selo que ganhei da Paulinha e selos que ganhei da Dielma. Aqui. Obrigada pelo carinho, queridas!


domingo, 10 de outubro de 2010

Ao poeta Renato Russo


“É tão estranho,
os bons morrem jovens.
Assim parece ser
quando me lembro de você,
que acabou indo embora,
cedo demais...
[Renato Russo]





A música perde
um muito de poesia.
Sem você
até o Tempo Perdido
encontrará presença
em tua ausência,
o Faroeste Caboclo
se tornará cinza,
A Tempestade
perderá alguns raios.
Sem você
As Quatro Estações
serão como um grande inverno
e ficará faltando um pedaço
nos corações
dos Pais e Filhos,
dos Meninos e Meninas
de nosso país.
Eu Sei, mesmo assim,
Quase sem Querer,
que a Música Urbana
perde um pouco o seu tom.
Mas, Quando o sol bater na janela do teu quarto,
sentirei a tua música iluminando,
quando o Vento no Litoral
bater em meu rosto,
sentirei a tua música como trilha sonora
e quando eu desenhar um sol na calçada,
o barulho do Giz soará como música em meus ouvidos,
a tua música,
que já está escrita no Livro dos Dias.
E se eu chorar
será Só por Hoje
e todos os dias em que a tua canção
penetrar em mim
com Perfeição.
O meu coração
está em Mil Pedaços.


[O poeta partiu, mas a sua poesia é imortal]





Escrevi este alinhavo, em homenagem ao grande Renato Russo, em 11/10/1996, exatamente no dia em que o poeta partiu. O poema contém títulos de suas músicas e de álbuns da Legião Urbana. O poeta continua vivo. Urbana Legio Omnia Vincit.

[Love in the Afternoon - Renato Russo]

Selo que ganhei da Malu. Aqui. Obrigada pelo carinho, Malu!


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